
Desenho deixado por uma paciente na sala da psicologia, no dia de sua cirurgia.
Dona Maria das Dores Antonio acordou na manhã do ultimo dia 13 de agosto disposta a tentar sua sorte. Sua filha de 5 meses, Ana Clara, havia nascido com uma fissura labial, o lábio leporino, e Dona Maria das Dores tentava, desde o nascimento, conseguir que sua querida filha recebesse a cirurgia reparadora. Até então ela não havia tido sucesso. Mas na noite anterior, voltando com ela para sua casa, à bordo de um ônibus que cruzava a ponte Rio-Niterói, Dona Maria começou a ser indagada por outros passageiros sobre sua filha e porque ela não a havia levado ao tal “mutirão que está acontecendo no Hospital do Fundão”, ao que ela respondia que havia perdido a oportunidade, pois as inscrições tinham sido só na semana anterior. Ao chegar em casa, o mesmo discurso, dessa vez feito por suas ‘comadres’: “leve ela lá, que mal tem?”, perguntaram.
Na manhã do dia 13, ao chegar ao Hospital do Fundão, Dona Maria foi encaminhada para o 12o andar, o centro cirúrgico, para que os voluntários da Operação Sorriso pudessem orienta-la sobre os caminhos que poderia tomar no futuro, para tentar conseguir a cirurgia para sua filha. Pelo menos era o que ela imaginava. Então imaginem o susto desta mãe de Niterói, angustiada havia 5 meses pela luta diária de tentar mudar a vida de sua filha, quando depois de 5 minutos de conversa com um voluntário da Operação Sorriso e uma avaliação no mesmo momento feita por um cirurgião plástico, um pediatra e um anestesista, ela foi informada de que sua filha receberia a cirurgia reparadora:
-Ah, é? Esse mês ainda?” – indagou Dona Maria das Dores.
-”Não”, respondi, “daqui a mais ou menos 35 minutos. É só o tempo de abrirmos o prontuário dela e fazermos os exames”
O olhar que recebi, assim como as lágrimas de Dona Maria ficarão para sempre guardados como uma memória deste programa!

Voluntária Luana Garcia e Maria das Dores Antonio, mãe da paciente Ana Clara
Mas Dona Maria não seria a única história comovente destes dias corridos, muito pelo contrario. Naquele mesmo dia, naquele mesmo instante em que eu conversava com ela, Douglas Daniel do Nascimento, um rapaz saudável de 13 anos, morador da Vila Kennedy, estava recebendo sua cirurgia de palato. A voz extremamente anasalada, resultante de seu palato aberto, havia feito com que Douglas abandonasse a escola anos antes e por isso ele não sabia ler ou escrever. As constantes brigas com colegas de classe fizeram com que sua mãe, Márcia Lima Macedo, não estranhasse a decisão. Só que Dona Márcia não estava do lado de fora do centro cirúrgico naquele instante, como as outras mães e pais, esperando o fim da cirurgia e tentando vencer a ansiedade de não saber o que estava acontecendo com seus filhos. Naquele instante, Dona Márcia estava na enfermaria, cuidando de seu outro filho, Victor Hugo, de 6 anos, que havia saído da mesma cirurgia momentos antes e se recuperava bem, dormindo.
Aquela sensação de ansiedade Dona Márcia já conhecia bem, pois na 2a feira, primeiro dia das cirurgias do programa, eu havia a visto aos prantos de emoção quando sua filha, Michelle, a primeira dos seus três filhos que foram operados naquela semana, saiu da cirurgia. Mãe de 6 filhos, 3 deles fissurados, Dona Márcia passou, em suas palavras, a maior parte dos últimos 13 anos dentro de casa, acompanhada de seus filhos. Em apenas uma semana, sua vida havia mudado por completo, assim como a dos seus três filhos mais novos. Até o mês anterior e apesar de morar dentro da cidade, Dona Márcia, incrivelmente, não sabia que existia uma possibilidade de cura para seus filhos, mas um intervalo de novela na TV Globo na semana anterior, onde o comercial da Operação Sorriso foi passado, faria mudar para sempre o futuro de sua família. E o primeiro objetivo apos retornarem para casa? “mandar eles pro colégio, depois sair mais de casa, aproveitar a vida, né?”.

Dona Márcia Lima Macedo e dois de seus filhos, recém operados
Aproveitar mais a vida é que o Senhor João Ferreira da Silva, morador de Duque de Caxias tinha em mente na última sexta-feira. Seu João tem 59 anos e até então, havia passado toda sua vida com uma fissura labial. Motivo? Quando veio do Rio Grande do Norte para o Rio há décadas, ele já possuía dois filhos, que seriam seguidos de mais 3 e, durante toda sua vida, sempre teve medo de perder mais de dois dias de trabalho pela cirurgia, o que poderia fazer com que seu patrão o despedisse. Agora, com seus 5 filhos criados, Seu João e sua mulher, casados há 40 anos, haviam decidido que já era hora dele aproveitar mais a vida e o primeiro passo, segundo ele, era: “resolver esse problema que me acompanha há 59 anos e ficar bonito”. Perguntei ao simpático Seu João o que ele achava que aconteceria agora que ele havia sido operado? “ah, meu filho, sem dúvida que minha mulher vai se apaixonar de novo por mim e vamos aproveitar!”
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João Ferreira da Silva antes e imediatamente depois da cirurgia
Se apaixonar é algo que Cristiane da Cruz, de 36 anos, quer muito fazer, especialmente por si própria. Operada de uma fissura labial no mesmo dia que o Seu João, Cristiane pediu um espelho para se olhar assim que chegou à sala de recuperação, ainda dentro do centro cirúrgico. Ao se olhar, suas únicas palavras foram: “agora sim posso me olhar no espelho”. Cristiane teve que esperar 36 anos por esse momento!
Tão forte é a vontade de mudar dos pacientes fissurados, que o Leonardo, um simpático e falante jovem de 20 anos, morador de Mesquita, no Rio de Janeiro, ao ser informado pelo cirurgião que o operaria que, talvez, dado sua fissura labial, fosse necessário retirar um pequeno pedaço de sua orelha para reparar o tecido, ele respondeu: “Doutor, se for pro Senhor me deixar com o nariz e a boca novos, o senhor pode tirar minha orelha inteira!”.
A luta por uma cirurgia não tem idade e também não tem fronteiras, como comprovada pela mãe de uma adolescente que havia chegado do Maranhão, especialmente para tentar a cirurgia no programa do Rio da Operação Sorriso. Sua irmã mora há alguns anos em Campo Grande, no Rio, e custeou as passagens da irmã e da sobrinha para que viessem ao Rio.
Essas são algumas das histórias que cruzaram meu caminho nos últimos 10 dias. Assim como eu, outros dos mais de 100 voluntários envolvidos no programa cirúrgico do Rio 2009 devem ter histórias que ouviram, os emocionaram e que levarão para toda vida como prova do que é possível realizar quando as pessoas se juntam para fazer o bem.
Os resultados podem ser contemplados nos olhos de pais como Verônica, mãe da Camila Vitória Alves, um bebê de apenas 4 meses, que virou o xodó de toda equipe, em parte pela simpatia de ir no colo de todos sem reclamar e, em parte, pois uma das pediatras da missão insistiu que a pequena, e bela, Camila era uma cópia fidedigna dela mesma quando bebê. Na noite do dia em que sua filha havia recebido a cirurgia reparadora, encontrei sua mãe debruçada sobre o berço na enfermaria, sussurrando para ela mesma: “ela está linda. Ela ficou perfeita, perfeita, não acredito”. Começamos a conversar sobre sua filha e sobre seu sofrimento quando descobriu que teria uma filha fissurada e não sabia como seria possível trata-la ou se até era possível. Depois que ela terminou de me contar sua história, eu disse apenas: “pois é, veja só o que foi possível mudar para o futuro da sua filha com uma cirurgia de apenas 19 minutos. Sim, eu vi a cirurgia dela e durou 19 minutos do primeiro corte ao último ponto, acredita?”. Ela olhou nos meus olhos, sorriu e começou a chorar e a dizer obrigado. Mas obrigado quem deveria dizer somos nós, os voluntários, por termos a experiência de passar por momentos como esse e por termos ajudado, por menor que seja a ajuda, a 114 famílias terem momentos como esses na semana passada. Famílias e pacientes terão, para sempre, suas vidas modificadas e, em alguns casos, tudo que os separavam de uma vida normal, como vimos, eram 19 minutos.


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